Resumos da Unidade II - Discente: Anderson

Por que se escrevia história? Sobre a justificativa da historiografia no mundo ocidental pré-moderno - Arthur Assis

A teoria exemplar da história

No século I a.C, o historiador grego Diodoro Sículo introduziu em seu prefácio uma espécie de catálogo, listando todos os possíveis usos da história que lhe ocorreram, e de acordo com ele, as histórias rememoram os feitos dos grandes vultos do passado, providenciado assim modelos a serem imitados pelos seres humanos do presente; histórias multiplicam a experiência possuída pelos mais velhos, transmitindo-a, ademais, aos mais novos; histórias qualificam os cidadãos para a vida política; histórias estimulam o patriotismo das classes militares, ao oferecerem-lhes a esperança do louvor futuro; por fim, as histórias ameaçam as pessoas de má índole com a possibilidade do opróbrio, dissuadindo-as da prática de maus atos.

Os escritos do catálogo de Diodoro acabaram sendo validados pelos historiadores durante muitos séculos, Os historiadores que atribuíam uma função exemplar aos seus escritos, não se interessavam primariamente nem pelo progresso do conhecimento do passado humano, no contexto da teoria exemplar da história pressuposta por tais autores o papel do historiador seria trazer à tona casos passados de comportamento moral e imoral de maneira a reforçar a moralidade a a astúcia política do público alvo das histórias, e sendo essa uma tendência não só Ocidental, como também Oriental, onde também os mais antigos historiadores  chineses também escreviam histórias com a finalidade de fornecer orientação prática aos governantes. Até a segunda metade do século XVIII poucos historiadores estiveram preocupados em contestar a ideia de que a sua tarefa cultural era contribuir para a educação moral e/ou política através do registro e da gestão de exemplos históricos, porém nos processos de modernização do pensamentos histórico pouco a pouco surgiram demandas pela redefinição desse pensamento sobre a função da história e do historiador.

Exemplaridade X Método

As primeiras manifestações de crítica relativa à teoria exemplar da história como fonte de justificação da historiografia estiveram associadas à emergência do chamado método histórico-filológico. Os humanistas dos séculos XV e XVI propunham a reabilitação dos antigos clássicos mediante uma reinterpretação que os purgasse dos significados que lhes haviam sido atribuídos durante a idade média. Foi essa atitude geral que inspirou os acadêmicos humanistas a renovarem os esforços de pesquisa do material relacionado com as culturas clássicas, e a editarem, reeditarem e comentarem textos clássicos. O método desenvolvido pelos filólogos clássicos seria rapidamente adaptado por outros campos do conhecimento. A nova atitude crítica perante as fontes históricas e o alargado fluxo de informações resultante tanto das novas edições de documentos quanto, no geral, da difusão da tipografia não deixaram de influenciar a historiografia política, No campo da historiografia, um dos mais notáveis impactos exercidos pelo método crítico foi uma certa desestabilização da autoridade dos historiadores clássicos. Em geral os historiadores da época do humanismo caracterizavam-se por um método de trabalho bastante distinto de seus colegas de hoje.

Um novo conceito de história

O método filológico-crítico tornou disponíveis novas ferramentas para a análise das informações acerca do passado, mas o seu desenvolvimento deu-se ainda dentro do mesmo horizonte temporal que acomodava também a teoria exemplar da história. Os exemplos históricos tornaram-se obsoletos menos em razão da disposição crítica favorecida pelos novos métodos de pesquisa do que por causa de uma mudança geral nas estruturas da experiência humana do tempo. Na historiografia medieval e da Alta Idade Moderna, predominava o uso da forma plural histórias, nessas épocas era comum somente falar de histórias de objetos particulares, essa situação semântica se alterou ao longo do século XVIII, desde então um novo conceito de história emergiu, conquistando a posição de termo chave nos discursos político e social. O aparecimento dessa noção de história como um macro-processo a transcorrer independente de todas as possíveis histórias particulares foi crucial para a superação da teoria exemplar da história. 

O CAMPO DA HISTÓRIA: Especialidades e abordagens - José D’Assunção barros

Clio Despedaçada

Uma característica crescente da historiografia moderna é que  ela tem passado a ver a si mesma como um campo fragmentado, compartimentado e compartilhado em uma grande gama de sub-especialidades. Fala-se hoje de vários tipos de “história” , enquanto no século XIX os historiadores tinham uma ideia bem mais homogênea do ofício. O historiador hoje é um historiador da cultura, economia, ou das mentalidades entre outros campos.

Mentalidades

As mentalidades causaram certas polêmicas na comunidade acadêmica da época que nasceu, principalmente devido à exploração ousada da amplitude de temas que poderiam ser abordados por esses historiadores das mentalidades, e de certa forma despertou uma forte estranheza e desavença. Na realidade, praticamente qualquer tema poderia ser abordado e trabalhado a partir dos enfoques relacionados às dimensões sociais. Para José D’Assunção, os temas trabalhados nas mentalidades, como a história da morte podem sim ser trabalhado por outros campos de estudo das história, porém o que determina a história das mentalidades não é seu tema trabalhado e sim a metodologia utilizada e o direcionamento do foco do historiador no coletivo mental e os modos de sentir da sociedade sobre determinado tema. O historiador disposto a abraçar a perspectiva teórica de que de fato existem mentalidades coletivas deve ampliar sua concepção documental, não deixando se satisfazer apenas pela leitura tradicional do testemunho histórico, e com isso ocorreu um casamento natural entre a História das Mentalidades e a História Serial, como abordagem metodológica para ampliar a utilização documental.

As abordagens

No âmbito das abordagens existem subdivisões possíveis da História que se referem ao ‘campo da observação’ com que os historiadores trabalham e existem subdivisões que se referem ao tipo de fontes ou ao ‘modo de tratamento das fontes’ empregado pelo historiador. 

História oral é a subdivisão historiográfica refere-se a um tipo de fontes com qual o autor trabalha, os testemunhos orais. Suas preocupações neste âmbito estarão relacionadas ao tipo de entrevista que será utilizado na coleta de depoimentos, aos cuidados na decodificação e análise dos mesmo, ao uso ou não de questionamentos pré-direcionados, entre outros.

Hoje poderíamos dizer que a maior parte das práticas historiográficas se inserem numa História do Discurso (ou História Textual). Um discurso qualquer pode ser analisado tanto a partir de uma ‘abordagem qualitativa’ como a partir de uma ‘abordagem quantitativa’ ou de uma ‘abordagem serial’ que examina documentos reunidos em série.

Um texto pode ser abordado qualitativamente de muitas maneiras, os profissionais que dependem da interpretação de textos para seu ofício não param de inventar novos modos de trabalhar sobre o texto, avançando para muito além daquilo que se encontra exposto em sua superfície. As abordagens semióticas enriqueceram muito as possibilidades de fazer um texto falar sobre coisas que o próprio autor do texto não pretendia dizer. 

Podemos dizer que a análise de um discurso deve contemplar simultaneamente três dimensões fundamentais: o intratexto, intertexto e o contexto. O ‘intratexto’ corresponde aos aspectos internos do texto e implica exclusivamente na avaliação do texto como objeto de significação. O ‘intertexto’ refere-se ao relacionamento de um texto com outros textos; e o contexto corresponde à relação do texto com a realidade que o produziu o que o envolve.

Mesa redonda: GT TEORIA DA HISTÓRIA | Teoria da História e desafios do Tempo Presente

Maria da Glória Oliveira: 

Maria trás questões sobre o pensamento pós colonial, dilemas deixados em aberto pela crítica ao eurocentrismo, dilemas entre universalismos e localismos questões muito centrais para discutir as possibilidades da ultrapassagem dos fundamentos e paradigmas da produção do conhecimento histórico em sua forma acadêmica e disciplinarm, Maria menciona o artigo da professora Ana Carolina Pereira da UFBA sobre quanto a teoria da história praticada e ensinada no brasil se insere numa dinâmica de geopolítica da produção intelectual que sempre nos colocou numa posição de consumidores, não só de referenciais externos mas dependentes de agendas de problemas de pesquisa originalmente formuladas por intelectuais europeus e norte americanos, o problema da chamada dependência acadêmica ou da extroversão intelectual/acadêmica como traço compartilhado pelos intelectuais do sul global e de territórios historicamente submetidos a colonização é um dos pontos centrais do pensamento pós colonial e do giro decolonial e também objeto de debates mais específicos que já se prolongam a bastante tempo, problematização da noção de lugar epistêmico, onde a universalidade deixa encoberto os particularismos, artigo chama atenção para a tarefa que é condição para superação dessa dependência acadêmica, e que no campo da teoria da história antes de pensar em superar essa dependencia ainda é nescessario que o campo exergue e problematize esse problema.

Durval Muniz Albuquerque Junior:

Durval trás uma questão das várias que ele escreve sobre, questão essa que pergunta qual o elemento fundamental do nosso tempo presente, para ele o elemento é a presença incontornável das imagens, a super presença do imaginário, da imagem, do visual como constituidor das leituras e interpretações sobre a realidade das próprias relações sociais, e para ele falta uma reflexão sobre a imagem na historiografia, onde a própria formação dos historiadores é uma formação que muitas vezes ignora a imagem, onde a imagem não só é o visual, como também as escritas, a memória e o conceito produzem imagens e que não há como escrever sem figurar, para Durval o trabalho do historiador é figurativo, e que a falta do uso da imagem na historiografia se deve em ao esquecimento da dimensão artística da história que ocorreu em boa parte do século XX, em contraposto aos historiadores que estabeleceram a história como uma disciplina acadêmica no século XIX reconheciam essa dimensão acadêmica.


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