Resumos da Unidade II - Discente: José Almir
O campo da História
Como debatido no texto anterior de Barros, no decorrer do século XX a história se torna muito mais fragmentada em relação ao que era no século anterior e até mesmo no início do século: as tentativas de totalidade dão lugar a especialidades focadas em determinados aspectos da História - e no capítulo em questão o autor trata do historiador das mentalidades, conceito fundamental surgido a partir dos Annales e com diversas implicações para o fazer historiográfico e sua relação com outras áreas do conhecimento.
No início dos Annales, a noção de mentalidade se alinhava mais à totalidade buscada por Marc Bloch, por exemplo. Com o advento da terceira geração, usualmente chamada de Nova História, o interesse por temas incomuns se sobrepõe e as especializações ocorrem com maior frequência em virtude de seus recortes temáticos. É o caso de autores que escrevem sobre a história do medo, da morte, da infância, etc. À parte dessa controvérsia ligada à fragmentação há outra mais relacionada ao conceito em si: a seu respeito há debates se existe, de fato, uma mentalidade coletiva.
Os historiadores que defendem uma resposta positiva a essa questão partem de três metodologias para abarcar tais mentalidades: abordagem serial, escolha de um recorte que projete atitudes coletivas e abordagem extensiva das fontes. De qualquer modo, há divergências e controvérsias em relação a como tal recorte expressa uma mentalidade mais geral, e como esta se relaciona com o caráter particular dos indivíduos. Se ao tratar de Rabelais, Febvre busca características de toda a sociedade em um único indivíduo, Ginzburg critica essa posição ao tentar encontrar aspectos de discursos distintos e até contraditórios no discurso de Menocchio, e tentando entender como ele os ressignifica a sua própria maneira. Essa linha seguida por Ginzburg, característica da micro-história, se tornou outro paradigma a ser seguido por historiadores posteriores também interessados pelas questões das mentalidades, mas com uma metodologia e abordagem particulares.
Fato é que tais debates abriram margem para mais especializações e fragmentações no campo da história. Nesse sentido, a aproximação com a psicologia e consequente surgimento da psico-história é uma das questões mais enfatizadas pelo texto. Barros afirma que “este campo mostra-se definido ou atravessado por preocupações oriundas da Psicologia e por conceitos de diversos tipos desenvolvidos no interior deste campo do saber.". Ou seja, o aparato teórico utilizado para explicar as mentalidades, a cultura, enfim, se aproveita dos estudos especificamente direcionados para a psicologia humana. É o que faz Jean Delumeau quando utiliza conceitos elaborados por Fromm e Reich. Além desses autores, outros amplamente utilizados são Freud e Norbert Elias – este cuja contribuição é mais ligada à sociologia, mas ainda assim defendeu veementemente a integração entre Psicologia e História de modo a enriquecer ambas as áreas.
Um dos perigos que se apresentam ao historiador que pretende seguir essa abordagem é o anacronismo: isto é, analisar a mentalidade de determinado tempo a partir da mentalidade e categorias específicas do próprio tempo em que o historiador está inserido. Isso equivale a tratar a maneira de pensar, sentir, viver, etc, de homens de séculos atrás da mesma forma com que nós mesmos tratamos as maneiras de nossos contemporâneos.
As abordagens
Após tratar das dimensões no tópico anterior, o autor passa a tratar das abordagens, ou seja, dos modos de fazer (algo que pode se referir tanto a um determinado campo de observação adotado pelo historiador ao desenvolver seu trabalho quanto a um modo de lidar com as fontes, mas no geral se alinha mais à metodologia do que à teoria.).
É o caso, por exemplo, da História Oral: seu uso pelo historiador pode se alinhar às mais diversas correntes teóricas, uma vez que o que a caracteriza é um modo específico de colher as fontes. A História Oral permite abarcar questões e informações para as quais outros métodos seriam insuficientes – mas ao mesmo tempo que ela apresenta essa vantagem também possui imprecisões que o historiador não deve desconsiderar. Isso, ainda assim, não diminui tal metodologia, uma vez que o uso de fontes de qualquer espécie é passível de imprecisão. Tal consideração, assim como a maior validação no âmbito historiográfico do uso de fontes não escritas, se desenvolve no curso do século passado e passa a modificar a própria definição do que é fonte histórica. Com a crítica de fontes operada a princípio pelos Annales, a própria fonte pode virar um fato histórico e ser percebida, consequentemente, como um discurso produzido.
A historiografia progressivamente passou a valorizar mais a última possibilidade citada, e é comum que estudos foquem no discurso que orienta as fontes ou como elas o expressam. Assim, o autor passa a tratar das possíveis abordagens com as quais o historiador pode tratar um discurso: qualitativa, quantitativa e serial.
A abordagem qualitativa possui muitas variantes possíveis, podendo ser tratado como um objeto de significação ou um objeto de comunicação cultural entre sujeitos: a primeira prioriza a análise interna em relação ao sentido do texto, a segunda prioriza seu contexto, a intenção do autor, a interpretação dos receptores, etc. Em todo caso, é preciso considerar o contexto, o intertexto e o intratexto, e o autor sintetiza bem a definição de cada um:
“o 'intratexto' corresponde aos aspectos internos do texto e implica exclusivamente na avaliação do texto como objeto de significação; o 'intertexto' refere-se ao relacionamento de um texto com outros textos; e o contexto corresponde à relação do texto com a realidade que o produziu e que o envolve."
Ligado a isso, o historiador deve considerar que todo texto implica na existência, para além do texto em si e seu conteúdo, de um receptor e um produtor, que também deve ser analisados na crítica das fontes. Na relação entre ambos, infinitas questões podem ser trabalhadas: em relação ao que é dito, ao que não é dito explicitamente, ao que o autor intencionalmente oculta... Nada disso pode ser feito sem uma profunda crítica que envolva todos os aspectos, desde o conteúdo do texto até seu produtor. A ampla variedade de possibilidades é um dos méritos da revolução documental que se operou a partir do século passado com a colaboração de diversos autores. No âmbito do estudo do discurso, um dos mais fundamentais foi Foucault, que afirmou algo que sintetiza sobremaneira a abordagem de muitos historiadores contemporâneos: "não é a própria sociedade que constitui a realidade a ser estudada, mas sim os discursos que ela produz, ou então as suas práticas.". O seu método genealógico, que avalia as relações de poder existentes no discurso além de diversas outras questões, é de notável influência na historiografia recente.
Outra abordagem citada é a História Imediata, que não deve ser confundida com História do tempo presente: ao passo que na primeira o historiador necessariamente possui uma relação muito próxima (espacialmente, afetivamente, temporalmente) com o objeto trabalhado, na segunda isso não necessariamente acontece, uma vez que o historiador pode ser distante de objetos contemporâneos a ele.
Em seguida, o autor trata da História Serial, uma abordagem muito distinguida como um modo de tratar as fontes. Embora tenha conexões com a História Quantitativa, ela não só pode ser utilizada sob este viés, uma vez que sua característica fundamental não é a análise de dados ou números, mas sim qualquer tipo de análise (incluindo qualitativa) que possa ser feita a partir de uma série de fontes homogêneas - a quantidade, na História Serial, não necessariamente é o aspecto mais relevante.
As abordagens seguintes pertecem ao domínio do “campo de observação”: História Regional e Micro-História. Assim como no tópico anterior, o autor mantém o movimento de explicar ambas a partir de suas diferenças, inclusive porque suas semelhanças podem levar a confusões e unificações que não existem na realidade. Uma definição adequada de Micro-História pode ser encontrada quando se afirma que ela não estuda “uma pequena comunidade”, ela estuda através dessa pequena comunidade para fazer descobertas de âmbito mais geral – algo que não é o propósito da História Regional, que foca, de fato, no estudo daquele pequeno recorte selecionado como um fim nele mesmo. Na Micro-História, ao contrário, o estudo de um recorte minúsculo é um meio para se estudar outras questões, outros problemas, que se apresentam através desse exemplo reduzido, – trata-se, portanto, de definí-la em relação ao modo de ver, e não em relação ao que se vê. A construção do texto que segue o viés da Micro-História, portanto, tem um caráter peculiar em relação a outros textos de História: a contextualização nem sempre aparece no começo, porque não é vista como uma forma de explicar aquele recorte - é comum que ela apareça posteriormente, e não de apenas uma forma (ou seja, a contextualização pode se referir a toda uma série de contextos variados que se relacionam de diferentes formas com o objeto.). Por fim, cabe citar que esse campo não deve ser compreendido como uma corrente teórica, pois não o é: o método indiciário de Carlo Ginzburg, de notável influência no campo da Micro-História, pode ser utilizado por historiadores de diversas influências teóricas que pretendam fazer um tratamento intensivo das fontes.
Porque se escreve história? Sobre a justificação da historiografia no mundo ocidental pré-moderno
Como o título coloca, o principal tema do texto é as mudanças em relação ao que era visto como a função da História nas mais diversas eras. Nessa linha, outro aspecto da questão muito trabalhado pelo autor é como, no decorrer das eras, tal função era atribuída geralmente a partir do que outras áreas do conhecimento “determinavam” - isto é, a História raramente operava de forma autônoma, seja servindo como uma ferramenta para que estudiosos exemplificassem teses de outras áreas do saber, seja tendo seus objetivos condicionados pelos rumos seguidos por outras áreas.
O autor inicia o debate destacando uma das funções mais antigas da História, que surge na Antiguidade atrelada a origem dessa disciplina (embora ainda não fosse constituída enquanto tal) e segue parcialmente canônica até parte da modernidade: a função exemplar.
O autor sintetiza a permanência da teoria exemplar e suas características da seguinte maneira: “"até pelo menos a segunda metade do século XVIII, ninguém ousou questionar seriamente a noção de que as histórias se escrevem sob o propósito expresso de promover virtudes morais e/ou políticas, e de desencorajar vícios." Desde a elite intelectual da Antiguidade até o Medievo, essa percepção era corrente, e se relaciona com a visão de que a História é apenas a filosofia ensinando através de exemplos – a tradição filosófica, porém, não enxerga da mesma forma, uma vez que considera que a educação moral e política é responsabilidade da filosofia apenas. Além dessa oposição, a História sob a teoria exemplar se distancia da filosofia porque sua origem está mais alinhada à tradição da retórica, e assim permaneceu por muito tempo. Nesse sentido, além do caráter educativo que se origina da retórica, outra semelhança se refere à associação da História com a moral.
Na Idade Média, a teoria exemplar assume características peculiares por conta do caráter teocentrista do período: os exemplos em questão dos quais a História se aproveita vão mais no sentido religioso, propondo exemplos do poder divino. Mais uma vez, a História permanece “submissa” a algo que não é ela mesma: se antes era a retórica ou a moral, agora é a religião, e não por acaso no período a historiografia esteve subordinada à autoridade religiosa e espremida entre outros gêneros de escrita – isso, porém, enfim vem a se modificar, no séc. XV, a partir das contribuições dos humanistas, que trazem como uma inovação a história das cidades. A função exemplar no caso dos humanistas italianos era mais moral do que política, e certamente bem menos vinculada à religião.
Apenas no final do séc. XVII é que a autoridade dos Antigos a respeito da definição de História será efetivamente questionada, ainda que a teoria exemplar siga sendo aproveitada mesmo por pensadores do iluminismo no século seguinte. Como Assis afirma:
“No decurso dos processos correlatos de modernização do pensamento histórico e institucionalização da disciplina histórica, os quais tiveram lugar ao longo dos séculos mais recentes da história da historiografia, apareceram pouco a pouco demandas pela definição da questão da função da história."
No segundo momento do texto, intitulado “exemplaridade x método”, o autor trata das razões e consequências da decadência da teoria exemplar da História, e a atribui em grande medida à emergência do método histórico-filológico. A filologia clássica decorrente do humanismo foi o que modificou a pesquisa e análise de fontes primárias motivando uma nova forma de fazer crítica destas.
A partir de então há, enfim, a “emancipação da História”: ela deixa de ser submissa ou mera ciência auxiliar a outras ciências ou áreas do conhecimento, da moral, ou da política, e passa a poder ser validada por suas próprias justificativas. Os novos métodos críticos e filológicos abalaram a influência da retórica, tão destacada nos historiadores clássicos e motivou uma crítica inédita em relação à veracidade dos textos desses autores, antes incontestáveis. A primeira aplicação desse método foi feita pelos autores da chamada artes historicae, que elaboravam textos de caráter teórico orientando como se deve dar a produção de textos históricos - algo que mais tarde viria se alinhar à teoria da história. Tratou-se da primeira tentativa de combinar o senso exemplar com pesquisas inspiradas pelo método filológico, uma vez que a teoria exemplar não havia sido completamente abandonada por esses estudiosos, e um certo caráter pragmático do fazer historiográfico permanecia – ou seja, o desenvolvimento do método filológico-crítico esteve dentro do horizonte que acomodava a teoria exemplar da história. essa segunda decaiu por causa de outros fatores. Um deles, que o autor enfatiza, é a noção da história como uma macro-história, e não como uma série de histórias isoladas de igual validade.
Resumo da mesa redonda "Teoria da História e desafios do tempo presente"
Inicialmente, ocorre a fala de Maria da glória oliveira, que focará em tecer uma crítica ao eurocentrismo que marca não só a tradição historiográfica como a produção científica ocidental como um todo. Outros conceitos caros ao debate pós-colonial também são trazidos: o universalismo ocidental, por exemplo, é bastante criticado - ainda mais tendo em vista que a tradição historiográfica brasileira em muito se baseou na tradição europeia. Nesse sentido, a professora reflete sobre até que ponto a historiografia brasileira seguiu um paradigma europeu e de que maneira ideias mais próximas à nossa realidade podem ser elaboradas e aproveitaas no âmbito da teoria. Entre as possibilidades de superação, ainda em meio ao debate pós-colonial, surge o conceito de transmodernidade, que abrange a crítica a instituições específicas da modernidade. A professora enfatiza que sua fala não defende o abandono absoluto de tais instituições e nem do paradigma europeu, mas é preciso entender primeiramente os problemas que surgem a partir de sua utilização, problematizá-lo e apontar soluções.
Em seguida, a fala de Temístocles Cezar trata sobretudo do cânone, sua definição e questões relativas a ele. Esse conceito geralmente tem o sentido de régua, modelo, ou paradigma - a reflexão do professor, portanto, busca compreender como esse cânone se constitui e porquê se torna um modelo a ser seguido e digno de ser estudado. Trazendo conceitos como tradição e autoridade, defendendo que são eles que sustentam o cânone, o professor Temístocles mostra como as escolhas políticas e ideológicas são relevantes nesse processo (afinal, uma obra não se torna clássica por um processo mecânico, mas sim porque pessoas escolheram estudá-la e passá-la à posteridade). A questão, então, não é abandonar o cânone (porque, de certo modo, outro seria constituído em seguida), mas sim compreender como ele surge e se consolida.
Por fim, Durval Muniz tem sua fala mais direcionada à definição de tempo presente, que o professor indica como uma de suas características essenciais a presença da imagem (não só imagem visual, porque o conceito e a memória produzem imagens). Algo que não era ignorado por autores como Michelet e Ranke, mas passou a ser desprezado por escolas posteriores que desprezavam a dimensão artística da História. Remetendo à fala da professora Maria da Glória, Durval fala de como a imagem também é um instrumento de colonização (novamente, não apenas imagens visuais, mas a linguagem como um todo que reflete um certo cânone por vezes eurocentrico). Essas imagens representam uma série de visões, posições, conceitos, enfim, de modo que se torna essencial ao historiador considerá-las em seu trabalho - ainda mais em um período repleto de negacionismos, em que pessoas desligadas da historiografia se apropriam dessas imagens para propagar inverdades.
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