Resumos da Unidade I - Discente: José Almir
1. Uma "disciplina" - entendendo como funcionam os diversos campos do saber
A primeira seção do primeiro capítulo do livro de Barros trata da origem da História enquanto disciplina, a fim de demonstrar o que a singulariza em relação a outras disciplinas e torna necessária a elaboração de teorias específicas para ela. Nesse sentido, o autor destaca dez dimensões essenciais que definem qualquer disciplina, assim como dá exemplos para esclarecer como tais dimensões se expressam na História em particular.
A primeira delas é o campo de interesses, que agrega o que os estudiosos da disciplina se dedicam a estudar. Entre tópicos mais específicos e outros mais gerais que também são compartilhados por outras disciplinas – de modo que, para de fato diferenciar cada uma há a segunda dimensão: a singularidade. A História por exemplo, compartilha com a geografia, a sociologia, filosofia e as demais ciências humanas, um interesse pelo homem. O que diferencia a primeira destas outras, seguindo a definição proposta pelos Annales, é o tempo. A História, portanto, estuda o homem inserido em determinado contexto histórico, ela historiciza-o, algo que não é praticado na sociologia, por exemplo.
A singularidade, porém, não impede que haja diálogos com outras disciplinas. Há, portanto, a dimensão da interdisciplinaridade. No âmbito da História, essa palavra passou a receber maior ênfase após a “Revolução Francesa da historiografia” (nas palavras de Peter Burke) realizada pelos Annales – a partir da nova concepção do gênero humano proposta por essa Escola (Segundo a qual ele jamais pode ser compreendido apenas por um viés, sem as contribuições de disciplinas que o observem explorando diferentes aspectos de sua enorme complexidade, com diversos tipos de fontes, etc.), a Sociologia, Geografia, Economia, enfim, se aproximam da História.
A próxima dimensão é a intradisciplinaridade, e se refere ao que o autor chama de “multiplicação dos ‘campos históricos’”, isto é, as especializações dentro da própria disciplina. Como observado por François Dosse, essa tendência pode levar a um “esfarelamento da História”, que o autor do texto aqui resumido trata como uma “constante ameaça de isolamento” - tendência oposta as tentativas de totalidade buscadas por correntes historiográficas anteriores.
Outras três dimensões se relacionam sobremaneira, de tal modo que são analisadas mais ou menos simultaneamente pelo autor: os aspectos expressivos, aspectos teóricos e aspectos metodológicos. Além de distinguir a História enquanto disciplina e lhe dar sentido, os aspectos teórica-metodológicos também são justamente o que possibilitam que ela seja caracterizada como ciência. Como o autor coloca, não trata-se de uma teoria ou metodologia apenas, mas de um repertório de ambas que são imprescindíveis ao ofício do historiador – e são expressas através do discurso, sem o qual não há comunicação e a devida compreensão entre os estudiosos da área.
A dimensão comentada a seguir se refere aos interditos, os aspectos “proibidos” ao estudioso da disciplina – que, certamente, não são definitivos e evoluem historicamente. Questões que hoje são muito estudadas na História, por exemplo, poderiam ser tratadas como interditos no século XIX – assim como questões que assim o são hoje, podem vir a ser estudadas ou revisitadas no futuro.
Em seguida e relacionando-se a tudo isso há a rede humana, podendo ou não estar inserida em uma rede institucional, mas de todo modo sendo definida como a “comunidade científica” ligada à disciplina. Isso inclui desde os estudiosos até seus trabalhos e pesquisas, que se interrelacionam constantemente, nem sempre de forma pacífica. A partir do momento em que a rede humana passa a estudar seus próprios membros, suas próprias relações, as dinâmicas de poder que se estabelecem entre eles, enfim, passa a existir um “olhar sobre si” - que é justamente essa reflexão da rede humana sobre si própria e sobre sua história
2. Teoria: o que é isso?
A seção seguinte do capítulo 1 irá, de fato, adentrar nos pormenores da teoria da história, um de seus aspectos essenciais que a constituem enquanto disciplina. O autor inicia a discussão definindo teoria como “visão de mundo”, isto é, uma espécie de prisma a partir do qual o historiador observa a realidade e coleta informações para sua pesquisa. Trata-se de uma visão de mundo distinta daquela com a qual observamos a realidade em nosso cotidiano, assimilando informações e propondo soluções para determinadas questões de nossa vida através de intuição. No caso da História, pelo contrário, é necessário um rigor metodológico para lidar com as informações recebidas a partir das fontes, e que evite que as conclusões atingidas a partir da análise sejam mero senso comum.
Mesmo essa definição, porém, carrega uma diversidade de sentidos. Um deles é que a teoria pode ser abordada como um “campo de estudos”, que agrega as conquistas teóricas realizadas pelos pesquisadores da área (as disciplinas chamadas “teoria da história” podem ser vistas como representativas deste primeiro sentido.). O sentido anteriormente tratado, inclusive, engloba o seguinte, que se refere às várias teorias, modelos explicativos, desenvolvidas pelos pesquisadores em relação a assuntos específicos. Ou seja, desde modelos para explicar o curso da história até modelos sobre como se deve escrever a História estão incluídos neste ponto. O terceiro sentido é o mais similar à definição proposta no primeiro parágrafo deste resumo: “forma específica de apreender a realidade e de enxergar o mundo”, cuja oposição central se dá em relação à intuição. Esta é característica do senso comum, define o modo pelo qual o homem observa a realidade, a analisa e elabora conclusões, sem mediadores, de forma instantânea. No caso da teoria, esses mediadores são imprescindíveis e a análise se dá através de uma razão discursiva, com etapas, procedimentos e métodos. Se há algo que embase a tese de que a História é uma ciência, é justamente a teoria e seus métodos. A partir disso o autor define um “modo teórico” de trabalhar, q ocorre quando o historiador seleciona “uma série de 'mediadores' para compreender a realidade examinada", com os quais são elaborados conceitos e hipóteses e é conquistada a confiabilidade do trabalho. Alguns mediadores teóricos e metodológicos citados são: conceitos, demonstrações, comprovações empíricas e procedimentos argumentativos.
O autor coloca que o caráter científico da História, instituído a partir do século XIX, ainda é motivo de debates. Independente da conclusão que se chegue a esse respeito, a separação entre intuição e teoria e o uso do moto teórico pelo historiador permanece essencial por conta das implicações que seguir o caminho contrário poderia ter. O autor coloca como exemplos o “modo teórico” utilizado por outros domínios científicos em situações de extrema importância. Considerando o caráter político da História e sua repercussão na sociedade, cabe a reflexão: o historiador também não lida com situações de importância similar? A repercussão de um trabalho mal feito em relação a temas sensíveis pode ser tão nefasta quanto o erro de um cientista de outra área.
Em seguida o autor elabora a respeito da evolução histórica do significado da palavra teoria. Desde suas origens na Grécia Antiga, a palavra se associa a “ver”, pois o conhecimento era tido como percepção. A partir do momento em que o modo de observar passa a ter tanto valor quanto o ato de observar em si, o conhecimento passa a ser tido como construção. Essa noção, de que a análise do mesmo objeto a partir de métodos ou pontos de vista diferentes pode alterar substancialmente a conclusão da pesquisa, surge nas ciências humanas antes das ciências exatas. No caso das diversas e contraditórias maneiras de explicar os acontecimentos (os paradigmas ligados ao pós-modernismo, estruturalismo, etc, que tem como consequência escolhas metodológicas também distintas) históricos, essa característica é particularmente notável.
Além de ser tida como um modo de ver o mundo, a teoria também remete a conceitos, que são a forma pela qual essa visão de mundo é usada para objetivar a realidade. Apesar das semelhanças que ela tem com a metodologia, cada uma se refere a um aspecto diferente do ofício do historiador, ainda que ambas serem indissociáveis para a compreensão da História como ciência. O autor distingue ambas a partir de dois aspectos principais: ver e fazer. A teoria seria o modo de ver, como já discutido anteriormente. Já a metodologia seria o lado prático, as ações concretas ao lidar com as fontes históricas e desenvolver a pesquisa. Como já dito, elas são indissociáveis: não se pode, por exemplo, optar por uma determinada teoria e colocá-la em prática através de uma metodologia que a contradiz.
II. Teoria da História e filosofia da História
Este tópico trata a princípio dos conhecimentos históricos anteriores à cientifização da História. Isto é, mesmo antes da História se constituir com seus métodos, técnicas, e teorias específicas, ela já era praticada e tentativas de explicação para seu funcionamento já eram elaboradas: desde filosofias da história até teologias da história. Essas formas anteriores já demonstravam uma metodologia documental que viria a marcar o trabalho dos historiadores profissionais no futuro, de modo que o surgimento das filosofias da história já prenuncia uma nova era historiográfica e antecipam alguns aspectos da História científica.
É nesse contexto que vão surgindo diversos paradigmas teóricos: materialismo histórico, historicismo, positivismo, etc. E mesmo após a cientifização, a variedade de paradigmas persiste: Agnes Heller afirma que “há umas [teorias] mais particulares e outras mais genéricas”, ou seja, a cientifização não implicou em um consenso estabelecido a respeito de qual teoria é mais ou menos adequada.
A variedade de teorias leva, portanto, a uma variedade de respostas em relação às perguntas que podem ser feitas sobre a História e a historiografia: qual sua função, quais seus usos políticos, qual sua relevância social, etc. Isto posto, vão surgindo campos paradigmáticos com os quais os historiadores se filiam ou se distanciam – eles, porém, não são tão rígidos ao ponto que o historiador não pode buscar contribuições de correntes diferentes da sua ou mesmo fundir ambas: trata-se de uma opção teórica, e a possibilidade de escolher ocorre justamente pela ausência de consenso no meio e pelo fato de, nas palavras do autor, a teoria da história ser “um eterno campo de disputas e diálogos vários”. Nesse sentido, os paradigmas podem coexistir, sem necessariamente refutar outros. Esse aspecto surge primeiro nas ciências humanas e posteriormente passa a ocorrer também nas ciências naturais, isso porque “o conhecimento como construção sempre esteve pelo menos implícita na prática dos historiadores”: naquele momento de “prenúncio” da História científica isso já era evidente por conta das variedades de conceitos utilizados para explicar a realidade histórica.
O autor destaca a seguir o papel fundamental da teoria na formação do historiador, que passa a ser mais reconhecido a partir da concepção de História-Problema. Isso se dá porque essa concepção, oriunda dos Annales, não mais vê a fonte histórica como um dado acabado ao qual basta o historiador apenas “transcrever” tal como está. O documento, evidentemente, permanece essencial, mas para analisá-lo devidamente é preciso partir de um determinado modo de ver que tire dele informações que não são óbvias - esse modo de ver constitui a definição de teoria. O autor encerra o tópico afirmando que assim como teoria e método são os dois alicerces do trabalho historiográfico, problemas e fontes também são essenciais.
Os teóricos da História têm uma teoria da história? Reflexões sobre uma não-disciplina
O texto de Simon elabora uma questão fundamental que havia sido colocada também por Barros em seu texto: a multiplicidade de significados de teoria da história. O termo por vezes varia entre teoria da história, teoria histórica e filosofia da história - cada um com significados específicos, mas eventualmente utilizados como sinônimos, e durante o decorrer do texto o autor buscará defini-los. Herman Paul, por exemplo, opta pelo termo teoria histórica com o objetivo de abarcar a multiplicidade de significados possíveis em um mesmo tempo e evitar tradicionais distinções entre filosofias especulativas e analíticas – por essa abrangência, o autor em questão é tanto elogiado quanto criticado. No segundo caso, isso se deve a outros autores optarem pelo termo em razão de sua possível exclusividade. A respeito de Nancy Partner, Simon sintetiza:
“Partner distingue entre “filosofia da história” e “teoria” tendo precisamente por base os diferentes sentidos da história, afirmando que enquanto a primeira lida com o processo histórico, o sentido restrito de “teoria histórica” deveria concernir somente aos assuntos da disciplina da história.” (p. 23)
A diferenciação entre teoria e filosofia, portanto, também merece destaque, mas o ponto central no início do capítulo é destacar como apenas uma mudança de termo, ou a proposição de um uso diferente do habitual já gera uma série de conflitos entre os estudiosos – em uma disciplina em que o rigor metodológico e conceitual é tão importante, a recorrência desses debates é plenamente compreensível.
Mas, por outro lado, a diversidade de significados e falta de consenso em relação aos termos são favorecidas pela falta de institucionalização dos estudos referentes a teoria da História - ou seja, a falta de integridade na área. Ainda assim, Simon observa fatores que podem dar um direcionamento nesse sentido: primeiramente, que já há uma discussão em andamento referente ao tema em revistas e universidade; em segundo lugar, redes e centros estabelecidos entre os estudiosos. A questão que parece colocada é que, normalmente, a teoria da história geralmente é vista como um meio para se estudar outros assuntos, e não como o próprio fim da maioria dos trabalhos – de modo que outros temas acabam tendo maior integridade institucional.
Antes de responder à pergunta proposta no título do texto, o autor elabora a respeito do que é, afinal, teoria da história, trazendo novamente as ambiguidades implícitas do termo. O fato de ser uma teoria “da” história pode implicar que essa teoria pertence à História enquanto disciplina. A primeira parte do termo, “teoria”, é justamente a mais ambígua: geralmente é associada à metodologia utilizada para analisar os fatos históricos, mas também pode ser uma teoria para explicar a dinâmica da história como um todo (esse segundo sentido existe como uma teoria “sobre” a história, e implica universalidade pois se trata de uma explicação totalizante). Tais apontamentos são importantes, segundo Simon, para refletir sobre o recente “excesso teórico” que existe sem a devida reflexão sobre o alcance das teorias. Ele sintetiza as possíveis definições dos conceitos da seguinte forma:
Estes são, então, os dois principais sentidos de “uma teoria da história”: uma teoria que pertence à história enquanto estudos históricos e que constitui um método ou abordagem específica e uma teoria sobre a totalidade da história entendida tanto como estudos históricos quanto o curso cambiante dos assuntos humanos (ou uma teoria sobre ambos). (p. 46)
Ambos os sentidos podem interagir, mas o pesquisador da História deve assumir um posicionamento teórico: voluntariamente ou não, ao desenvolver uma pesquisa argumenta-se a favor de algum desses lados, a favor de uma ou outra teoria. Sendo ela o fundamento básico do ofício do historiador enquanto cientista, não há como escapar disso ou manter uma neutralidade. Como Simon coloca, não trata-se de criar uma teoria completa, mas entender o alcance e utilidade das teorias que existem para fazer os estudos históricos avançarem - como demonstrado anteriormente, a teoria da história não é estável nem imutável: ela é, também, histórica, e evoluem segundo as necessidades dos homens de cada época.
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